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Em termos de e-commerce, intralogística é peça-chave na escalabilidade das operações

Publicado em 24/10/2022

Alta no número de pedidos fracionados criou desafios para a logística brasileira, mas gigantes como Mercado Livre, Amazon e L’Oréal se consideram preparadas para atender às demandas

Por Christian Presa


Foto: Divulgação

Não há como pensar em escalabilidade das operações – e, consequentemente, em êxito de negócio – sem considerar a intralogística como um dos elos mais importantes de uma cadeia produtiva. Essa percepção é enfatizada pela solidez do e-commerce, que deverá alcançar a marca de US$ 5,5 trilhões em vendas ao redor do mundo, de acordo com dados da pesquisa realizada pela eMarketer.

O crescimento do número de pedidos feitos via e-commerce é um desafio para a intralogística, é claro. No entanto, um obstáculo que talvez seja até maior é o fato de essa alta do comércio eletrônico ser preponderante para fracionar os pedidos, já que isso tem um impacto direto nas operações em centros de distribuição.

Apesar disso, o Índice de Produtividade Tecnológica (IPT) de Logística, pesquisa encomendada pela TOTVS e conduzida pela H2R Pesquisas Avançadas, 38% dos varejistas entrevistados investem em um sistema de gestão para a área de armazenagem – mesmo que 92% das empresas participantes tenham confirmado que possuem um setor voltado à essa área.

Mas esse cenário tende a mudar, especialmente depois do que se viu no auge da pandemia de Covid-19. O executivo sênior de Vendas da Pitney Bowes, Murilo Namura, destaca que a crise sanitária foi o momento em que muitas empresas enxergaram o potencial da intralogística para impulsionar resultados.

“Um dos grandes diferenciais brasileiros sempre foi trabalhar com muita criatividade nos processos internos, principalmente para atender a grande variedade de clientes e objetos movimentados. [...] No Brasil, podemos observar que em muitos seguimentos de produtos há grandes oportunidades de especialização e melhora de performance, principalmente se houver investimentos em processos, automações e operadores/embarcadores com seus perfis de produtos definidos.” – Murilo Namura, executivo sênior de Vendas da Pitney Bowes.

O investimento em intralogística é visto como diretamente proporcional à melhoria dos resultados pelo gerente de Vendas do Damon Group, Rubens Gomes. “Podemos esperar para os próximos anos grandes investimentos em tecnologias para intralogística por parte das empresas, com o objetivo de reduzir custos operacionais, ter ganho de escala, aumento de capacidade e principalmente aumento de performance e produtividade.”

“Ainda há muito espaço e muitas tecnologias a serem exploradas no Brasil. Muitas operações logísticas ainda são manuais e culturalmente existe uma barreira tecnológica que muitas empresas ainda precisam quebrar, mas ao longo dos últimos anos, as empresas no Brasil vêm se atualizando e pensando de forma inovadora para implementações de soluções tecnológicas para a logística que já existem em outros países.” – Rubens Gomes, gerente de Vendas do Damon Group.

Segundo o Key Account Manager da Bertolini, Israel Schimitz dos Santos, o aumento na unitização é algo que deve aumentar nos próximos anos. “[Aumentará a] necessidade de controle, velocidade de picking e o aumento de SKUs na operação. Tecnologias e ferramentas para picking que já são utilizadas lá fora tendem a ser cada vez mais demandadas por aqui.”

“No Brasil, é comum deixar os custos logísticos em segundo plano e geralmente os investimentos são decididos quando a infraestrutura atual já apresenta riscos para a operações. Outro diferencial brasileiro atualmente é a busca crescente de informação sobre novas tecnologias, o aumento no volume de projetos, porém a tomada de decisão ainda conflita com o custo de mão de obra operacional e valor/m² da infraestrutura.” – Israel Schimitz dos Santos, Key Account Manager da Bertolini.

A INTRALOGÍSTICA EM GRANDES PLAYERS BRASILEIROS

Atualmente, o Mercado Livre é o listado como o 2º maior e-commerce do Brasil – e fica no topo da lista, se considerados negócios sem lojas físicas. Na empresa, a infraestrutura é considerada um pilar para a eficiência logística.

Nesse sentido, o diretor sênior de Operações Logísticas do Mercado Livre, Luiz Vergueiro, destacou que a intralogística está presente nas mais diversas estruturas dentro da operação da empresa, contemplando cross-docking, fulfillment e last mile.

A operação de cross-docking, ao longo dessa jornada, foi automatizada com esteiras e sorters para que esse processo ganhasse mais velocidade e eficiência. Depois, avançamos mais um passo nas operações de fulfillment, que foi idealizada para que pudéssemos entregar melhores experiências tanto para o comprador quando para o vendedor. O fulfillment é, talvez, o elo mais importante de intralogística dentro da nossa rede. Ele é tão importante pra nós que nossos investimentos em tecnologia e sistemas nessa área estão sempre na nossa prioridade. Por fim, a intralogística também impacta na operação de last mile, na roteirização dos pedidos que vão chegar no consumidor final.” – Luiz Vergueiro, diretor sênior de Operações Logísticas do Mercado Livre.

Na concorrência, a status de relevância da intralogística também não destoa muito. Segundo o site leader da Amazon no Rio de Janeiro, Renê Neto, a operação da empresa depende da organização e sinergia entre cada área para manter um inventário acurado.

“Recebimento, Qualidade e Learning atuam em constante melhoria de processo para que a Expedição faça o papel final de empacotar e enviar os itens de forma rápida e precisa. Fazendo uma analogia ao futebol, é como se essas áreas preparassem a jogada inteira para a Expedição empurrar a bola para a rede. Dentro dos CDs, temos estratégias de armazenagens que levam em consideração o giro dos itens no inventário, o que garante que o time da expedição tenha um acesso mais rápido e fácil dos produtos. As linhas de embalamento também são configuradas de forma a otimizar o processo para grupos específicos de itens.” – Renê Neto, site leader da Amazon no Rio de Janeiro.

Em julho deste ano, a MundoLogística publicou uma matéria exclusiva sobre o estilo das operações da empresa no Brasil. Um dos destaques foi a estratégia de armazenagem sortida, caracterizada pela distribuição de produtos diversos de forma quase aleatória, seguindo tendências de consumo. “Temos estratégias de armazenagens que levam em consideração o giro dos itens no inventário, o que garante que o time da expedição tenha um acesso mais rápido e fácil dos produtos”, explicou Neto.

No caso da L’Oréal Brasil, a intralogística foi definida pelo diretor de Distribuição Física, Renan Loureiro, como “um órgão vital, pois toda a eficiência de performance, qualidade e custos depende da aplicação de inteligência nestes processos e sistemas internos”.

“Agilidade e flexibilidade são requisitos mandatórios e para atender um mercado consumidor cada vez mais exigente. [...] O nosso novo Centro de Distribuição GAIA é um ícone deste movimento e está gerando um impacto positivo em todo o entorno e em nossas operações. [Temos] novas tecnologias de picking, que aumentaram em quase duas vezes a nossa produtividade.” – Renan Loureiro, diretor de Distribuição Física da L’Oréal Brasil.

O IMPACTO DO FAST DELIVERY

A entrega rápida é um fator decisivo nas compras online. Segundo o Capterra, que realizou uma pesquisa com mais de 1 mil participantes, 49% dos entrevistados consideraram a rapidez na entrega como o fator mais importante no e-commerce, superando inclusive o valor do frete (33%).

“No final das contas, ter um processo dentro da sua gestão muito bem controlado e gerido vai te dar a velocidade e eficiência necessárias para a sua operação”, destacou Luiz Vergueiro, do Mercado Livre. “Eu sempre digo que a Logística não mudou, do analógico para o digital. Ainda é um problema de densidade e de escala. O e-commerce gera uma complexidade que está muito associada à entrega. Estamos falando da saída de produtos de um CD para centenas de compradores ou de uma entrega onde há coleta em vários lugares. A tecnologia veio para ajudar a escalar e ter controle nesse processo.”

No entanto, o executivo enfatizou que a tecnologia em intralogística é um recurso para trazer eficiência e valorizar o papel humano, que pode ser deslocado para atividades de valor.

O trabalho humano ainda vai continuar existindo na Logística. Ainda estamos muito longe de ter automação completa em todas as operações, então terão muitas pessoas empregadas. A grande coisa é que as pessoas vão ser usadas para as atividades que agregam mais valor e que tenham mais importância dentro da operação, enquanto a tecnologia servirá para simplificar o trabalho dessas pessoas.” – Luiz Vergueiro, diretor sênior de Operações Logísticas do Mercado Livre.